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Opinião: A arbitragem brasileira é reflexo de décadas de descaso com sua formação

Enquanto as principais ligas do mundo investiram na profissionalização da arbitragem, o Brasil conviveu por décadas com um modelo que priorizou a reação ao...

Opinião: A arbitragem brasileira é reflexo de décadas de descaso com sua formação
Opinião: A arbitragem brasileira é reflexo de décadas de descaso com sua formação (Foto: Reprodução)

Enquanto as principais ligas do mundo investiram na profissionalização da arbitragem, o Brasil conviveu por décadas com um modelo que priorizou a reação aos erros em vez da formação contínua de seus árbitros

Durante muito tempo, o futebol brasileiro acostumou-se a tratar a arbitragem como um problema de domingo, quando, na verdade, ela sempre foi um problema de planejamento. A cada rodada do Campeonato Brasileiro, dirigentes, jogadores e torcedores voltam suas atenções para decisões polêmicas, discutem erros de interpretação e cobram mudanças imediatas. No entanto, raramente a discussão chega à raiz da questão: como o país que mais exporta jogadores e revela talentos para o mundo demorou tanto para enxergar que árbitros também precisam ser formados, desenvolvidos e valorizados como profissionais de alto rendimento?

Não é exagero dizer que o Brasil passou décadas esperando excelência de uma categoria que nunca recebeu estrutura compatível com o tamanho do futebol nacional. Enquanto clubes se transformavam em empresas, centros de treinamento eram modernizados e atletas passavam a contar com equipes multidisciplinares, a arbitragem seguia baseada em um modelo que dependia muito mais da experiência adquirida ao longo da carreira do que de um processo contínuo de desenvolvimento. Era como exigir que um piloto disputasse a Fórmula 1 treinando apenas nos fins de semana.

Como a arbitragem é encarada em federações europeias?

O contraste com as principais ligas do mundo sempre foi evidente. Na Inglaterra, a Professional Game Match Officials Limited (PGMOL) transformou a arbitragem em uma carreira profissional. Os árbitros trabalham em dedicação exclusiva, treinam diariamente, são avaliados após cada partida e contam com especialistas em preparação física, psicologia e análise de desempenho. Na Alemanha e na Espanha, os modelos seguem a mesma lógica: investir no árbitro antes de cobrar resultados dele. Não se trata de eliminar os erros — algo impossível em qualquer esporte —, mas de reduzir sua incidência por meio de preparação, acompanhamento e evolução constante.

No Brasil, porém, durante anos prevaleceu uma cultura de reação. O árbitro errava, era afastado por algumas rodadas, retornava às escalas e o ciclo recomeçava. Pouco se falava sobre formação continuada, reciclagem técnica ou acompanhamento individualizado. A impressão era de que bastava trocar nomes para resolver problemas que, na realidade, eram estruturais. Afinal, um sistema que produz decisões inconsistentes repetidamente dificilmente pode atribuir toda a responsabilidade apenas aos indivíduos que fazem parte dele.

Talvez o maior erro tenha sido acreditar que a tecnologia resolveria aquilo que a gestão ignorava. A chegada do VAR representou um avanço importante, mas jamais poderia substituir uma formação sólida. O árbitro continua sendo o protagonista das decisões, seja dentro de campo ou na cabine de vídeo. Se a base de conhecimento, os critérios e a preparação permanecem frágeis, a tecnologia apenas muda o palco onde os erros acontecem. O problema deixa de estar no gramado e passa a ser discutido diante de um monitor.

O movimento tardio da CBF

A própria CBF parece ter reconhecido esse cenário ao anunciar, nos últimos anos, a criação de um grupo de trabalho para reformular a arbitragem e um programa de profissionalização que prevê contratos, remuneração fixa, acompanhamento psicológico, preparação física e investimentos milionários. As iniciativas merecem reconhecimento porque apontam na direção correta. Mas também levantam uma pergunta inevitável: se esse era o caminho, por que ele demorou tanto para ser percorrido? Quantos campeonatos foram marcados por crises que poderiam ter sido minimizadas caso esse investimento tivesse começado muito antes?

É evidente que profissionalizar a arbitragem não eliminará as polêmicas. Nenhuma liga do mundo conseguiu esse feito. A diferença é que, em países onde a formação foi tratada como prioridade, os erros costumam ser encarados como consequência natural da complexidade do jogo, e não como reflexo de um sistema constantemente colocado em dúvida. No Brasil, a desconfiança tornou-se parte da cultura do futebol justamente porque faltou, durante muito tempo, uma política consistente de valorização e desenvolvimento dos árbitros.

A busca do tempo perdido envolve visão de longo prazo

A verdade é que o futebol brasileiro nunca precisou apenas de árbitros melhores; precisava, antes de tudo, de um projeto melhor para formar esses profissionais. Criticar o juiz após os noventa minutos é simples e rende manchetes. Difícil é admitir que, durante décadas, a arbitragem foi tratada como um detalhe em um esporte que movimenta bilhões de reais e influencia a vida de milhões de pessoas. Se a CBF realmente pretende mudar essa história, a profissionalização anunciada não pode ser encarada como um ponto de chegada. Ela precisa ser apenas o início de uma mudança cultural que já deveria ter acontecido há muito tempo.